segunda-feira, 29 de junho de 2009

MEDEIA a partir de Eurípides


Creditos: As Boas Raparigas


Sei que crimes vou cometer, mas a cólera é mais forte que minha vontade.”

Medeia


Porto
1º Fase da Carreira
De 10 a 26 de Julho no Estúdio Zero
Terça a Sábado às 21h45
Domingo às 16h
2º Fase da Carreira
De 18 a 30 de Setembro no Estúdio Zero
Terça a Sábado às 21h45
Domingo às 16h
M/12

MEDEIA
a partir de Eurípides



Encenação│ Luís Mestre
Tradução│ Maria Helena Pereira
Cenografia│ As Boas Raparigas e Luís Mestre
Design de Luz│ Joana Oliveira*
Sonoplastia│ Luís Aly
Figurinos │ As Boas Raparigas
Elenco
Carla Miranda
Daniel Pinto
Maria do Céu Ribeiro
Nuno Cardoso


*Aluna em Prova de Aptidão Profissional do Curso de Luz, Som e Efeitos Cénicos da Academia Contemporânea do Espectáculo


Sinopse

Medeia, princesa da distante Cólquida, (hoje Geórgia) descendente do Sol, apaixonada por Jasão, traiu a sua família e abandonou a terra natal, auxiliando o seu amado e a expedição dos argonautas a conquistarem o velo (pêlo de carneiro) de ouro. Quando, anos mais tarde, depois de terem constituído família e se terem instalado na Grécia, Jasão anuncia que pretende desposar uma princesa local para aumentar o seu prestígio e influência, Medeia, para vingar o ultraje de Jasão, serve-se da astúcia e de conhecimentos mágicos, e arquitecta o assassinato da noiva e de seus próprios filhos.


Medeia

Com o poeta Eurípides, a tragédia grega ganhou novos elementos. Eurípides soube pintar as paixões humanas como nenhum dos dramaturgos gregos anteriores. Em Medeia (431 a.C.), apresentou o retrato psicológico de uma mulher carregada de amor e ódio. Medeia representa um novo tipo de personagem na tragédia grega: esposa repudiada e estrangeira perseguida, ela revolta-se contra o mundo que a rodeia, rejeitando o conformismo tradicional. Tomada de uma fúria terrível, mata os filhos que teve com o marido, para se vingar dele. É uma das figuras femininas mais impressionantes da dramaturgia universal.


Estúdio Zero - Rua do Heroísmo, 86 (Metro do Heroísmo)

INFORMAÇÕES E RESERVAS
225 373 265
asboasraparigas@gmail.com
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Companhia subsidiada pelo Ministério da Cultura / DGArtes.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Estado Crítico

As críticas teatrais de Jorge Louraço Figueira no jornal Público - e não só!

O som dos tacões no soalho do teatro [BOAS]

Persona, de Ingmar Bergman, pel’ As Boas Raparigas
Porto, 2 de Outubro

Persona, o filme, é célebre por se referir ao próprio acto de filmar. Quando uma das duas personagens (ou metade de uma única) espeta o pé num vidro deixado pela outra, a fita acaba por queimar, dando lugar a fantasmas de cinema, como se o ferimento ficcional tivesse originado uma coisa infilmável. Em momentos cirúrgicos, a ficção é cortada, e o realizador lembra que se trata de um faz-de-conta. Um faz-de-conta de inspiração psicanalítica, claro, mas mesmo assim um faz-de-conta.

Em palco, é mais fácil recordar às pessoas que se está apenas a fingir. Basta o toque-toque dos tacões da menina no soalho para nos lembrar que afinal estamos no teatro. As revelações ou os picos de tensão de uma peça podem bem ser sublinhados por todo o tipo de coisas que nos chame de volta para a realidade, quando já pensávamos estar a salvo dela, num mundo de fantasia.

A encenação desta Persona para palco optou por não almofadar as solas de um dos pares de sapatos, dispensando o truque. Neste caso, o som dos saltos altos é usado para assinalar a inversão de papéis das personagens, ao mesmo tempo que afirma a materialidade incontornável dos corpos das actrizes. Há outros marcadores de que estamos num palco, o principal dos quais é o uso de uma cortina, aberta depois das primeiras cenas e fechada antes do ataque final. Esta e outras convenções, denunciadas com gosto, são usadas como trunfos da teatralidade: cada gesto desperta os sentidos, em especial o instinto espacial que, no cinema ou na literatura, costuma estar bem mais adormecido.

Mas o que desestabiliza a leitura, e incita o espectador a procurar significados ocultos, são os pequenos gatos escondidos com o rabo de fora. (Os passos na rua; a porta aberta para o pátio; o televisor com as palavras em sueco.) A figurinista, de cujo trabalho gosto em particular, faz maravilhas com os trapos. A presença dos corpos é tão ameaçadora como sedutora, revelando a pele das actrizes, mais trigueira, uma, mais láctea a outra. A montagem, que parecia mais difícil de reproduzir, por ser forma específica do cinema, foi incorporada neste espectáculo graças à agilidade no uso dos figurinos, adereços e cenário, e às diferentes atmosferas da iluminação, que ritmam uma espécie de mudança de planos. Assim, dá gosto ir ao teatro.

Esta fábula foi a melhor maneira de Bergman desabafar, rompendo o mutismo do ficcionista perante o olhar do garoto no gueto judaico de Varsóvia ou a serenidade do monge vietnamita imolando-se pelo fogo. A foto do Gueto e a filmagem do Vietname transcendem o mero noticiário, é óbvio, e representam o horror de modo arquetípico, ou não teriam lugar no guião de Persona, cuja metáfora é a divisão de personalidade entre a horrível verdade e a cara que mostramos. O apego de Vogler à verdade fá-la renunciar à fala, na impossibilidade de ser verdadeira perante o horror. Mas a que horror corresponde a resposta d’ As Boas? Que actos sanguinários são ocultados por máscaras de palavras? Privada da sua relação (metafórica) com episódios históricos exemplares, a revelação, por parte da mãe, do asco que tem pelo filho, perde a grandeza que nos horrorizaria até cairmos no mutismo, qual Electra do século XXI.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Persona de Ingmar Bergman



“Persona é o conhecimento, um terrível conhecimento sobre a nossa solidão, a nossa singularidade. A nossa capacidade de tocar um ao outro. É uma confissão dos nossos medos. Do homem, do fracasso, da morte. Persona é um drama sobre o desespero, o silêncio. Um terror indescritível da vida em todos os aspectos. É um drama sobre a sensibilidade da pele, dos rostos e das palavras não entendidas. Persona é uma ilusão estilhaçada. Uma vitória sobre o silêncio.“
Texto do trailer de Persona


Encenação│ João Pedro Vaz
Tradução│ Armando Silva Carvalho
Cenografia│ Cláudia Armanda
Design de Luz│ Nuno Meira
Sonoplastia│ Luís Aly
Figurinos│ Catarina Barros
Elenco│Maria do Céu Ribeiro e Sandra Salomé


Persona, Suécia, 1966 – Guião de Ingmar Bergman

Sinopse

A actriz Elizabeth Vogler deixa de falar durante uma representação teatral de Electra. O seu mutismo em relação aos que a rodeiam é total, sendo então internada numa clínica. Não está doente, simplesmente optou pelo silêncio. Alma, uma jovem enfermeira, fica encarregada de tratar dela. Quando, a conselho médico, as duas se isolam numa ilha, passam a desenvolver uma intimidade e cumplicidade crescentes. Com isso estabelece-se uma constante troca de identidades.

Persona

Obra impregnada do conceito de pecado e principalmente da culpa, Persona é fiel aos temas recorrentes das obras de Ingmar Bergman. Em Persona, é visível a submissão do autor ao estilo a que ele sempre recorreu: a temática bastante densa e sempre pessimista, com poucos personagens, vivendo situações de crise intensa em ambientes quase sempre claustrofóbicos, mesmo que o cenário seja a paisagem de uma ilha. Sabendo que com Bergman vida e obra são conceitos indissociáveis, assinala-se que o filme foi confessamente concebido durante um período de profunda crise do autor, quando este se encontrava hospitalizado devido a uma pneumonia e em período de questionamento da sua actividade como director do Teatro Nacional de Estocolmo. Como ele próprio afirma: "Era necessário, por conseguinte, escrever qualquer coisa que apaziguasse a sensação de futilidade que sentia, a sensação de estar a marcar passo." Da mesma forma, PERSONA deixa claro os momentos em que o artista se vê impassível ao observar que, mesmo contra o seu desejo, a sua arte acaba por ser inútil enquanto modificadora da realidade, impassibilidade essa que acaba por determinar o retiro e o silêncio constante de Elizabeth Vogler.
Cine Atila Francis 08/07/2008



Porto
De 24 de Setembro a 2 de Novembro no Estúdio Zero
Terça a Domingo às 21h45
M/16


Estúdio Zero - Rua do Heroísmo,86 (Metro do Heroísmo)

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quinta-feira, 10 de abril de 2008

4.48 Psicose de Sarah Kane

"Estou a escrever uma peça chamada Quatro Quarenta e Oito Psicose. Tem semelhanças com Falta, mas é diferente. É sobre uma depressão psicótica. É o que acontece com a mente de uma pessoa quando as barreiras que distinguem a realidade das diferentes formas de imaginação desaparecem completamente. De maneira que já não consegues estabelecer a diferença entre a tua vida acordado e a tua vida em sonho. E também, não consegues – o que é muito interessante na psicose – não sabes onde é que tu acabas e o mundo começa. Por isso, por exemplo, se eu fosse psicótica, eu não sabia literalmente estabelecer a diferença entre mim, esta mesa e o Dan. Fariam todos parte de um continuum. E as diversas fronteiras começam a desabar. Formalmente também estou a deitar abaixo alguns limites. Continuar a fazer a forma e o conteúdo num só. Isso tem-se vindo a provar extremamente difícil e não vou dizer a ninguém como o vou fazer, por isso se algum de vocês chegar lá primeiro eu ficarei furiosa. Seja lá o que for que iniciei com Falta, desta vez vai um passo mais à frente. E para mim essa linha é muito clara e vai desde Ruínas através de O Amor de Fedra até Purificados e Falta e até esta agora. Para onde vai depois disso não tenho ainda a certeza."
Sarah Kane (Trad.: PM)




As últimas notas sobre dor, angústia mental, cáusticos relatos do uso terapêutico de drogas, escritos por Sarah Kane, vão estar em cena no ESTÚDIO ZERO, de 10 a 24 de Abril, tomando novamente fôlego para os dias 1 a 18 de Maio, de Terça a Domingo sempre às 21h45.


Encenação: Luís Mestre
Tradução: Pedro Marques
Cenografia: Pedro Novo
Design de Luz: Luís Mestre e Manuel Pereira
Elenco: Daniel Pinto e Maria do Céu Ribeiro






Estúdio Zero - Rua do Heroísmo,86 (Metro do Heróismo)

INFORMAÇÕES E RESERVAS

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quarta-feira, 18 de abril de 2007

Histórias Mínimas


História Mínimas é comédia, drama, poesia, amor, absurdo, morte, em palavras do próprio autor. Histórias Mínimas é esse “elo” freudiano que nos envergonha manifestar em público pelo que dirão e que quase sempre reprimimos.As Boas Raparigas… iniciaram a sua carreira com este espectáculo e têm regressado a ele com alguma frequência. em 2006, a companhia fez uma nova selecção onde apresenta histórias com miúdos que partem a lua, barbeiros que degolam os seus clientes, estrelas que se apagam com um sopro, brevíssimas pinceladas escritas com transbordante humor e inteligência, em que o quotidiano se torna absurdo e o absurdo se transforma no quotidiano.

PROJECTO ARTÍSTICO

Dentro de um percurso- ou antes durante, as tais coisas se vão fazendo, criando uma tendência à aceitação de formas novas (ou velhas) geralmente condicionadas à manutenção de zonas críticas de tensão, de diferença e, o que é mais importante, para a pesquisa de consciência de uma prática teatral que se reconhece a si mesma- pelo e pela forma de praticá-la. Todo o trabalho realizado mostra-se esboçado pelo grupo inserido num seu tempo e personificando as debilidades das circunstâncias. Seria sensato, pôr à prova, todo o trabalho elaborado por nós, como um projecto estético e de cultura.
A sinalização de todo um processo de realização teatral, à escala do grupo, só se afirma pelo que fomos elaborando em termos de espectáculos e de conquista-aceitação da parte de um público- de uma abertura para projectos de trabalhos futuros delineados pelo próprio processo e sentindo os sinais de uma identidade própria.
Numa primeira abordagem, o nosso objectivo é desregular os sentidos visando uma sensação mais intensa. Somos a favor do inconsciente e do corporal. Defendemos a palavra e o texto e privilegiamos o elemento estético-sensual e a criatividade na vertente do actor como factor de unidade fundamental. O efeito sobre o inconsciente fomenta a descodificação; pela palavra possuímos a maximização do fluxo da libido. Não se trata de meras formulações de Princípios. Convencemo-nos disso ao longo dos trabalhos apresentados ultimamente. Praticámos a intertextualidade pela via dos fragmentos e das situações. A forma como a representação se dirige ao público pode ser mais directa e direccionada ou mais enigmática, exigindo nesse caso, a participação activa do receptor na construção de significações. Mais importante que a percepção cognitiva é a co-produção do espectador. De um lado uma tendência progressiva do diálogo ao monólogo (basta comparar as peças "Histórias Mínimas" com "Quatro Horas em Chatila") , podendo levar a um fluxo pulsional e, de outro, uma tendência à despsicologização e ao distanciamento crítico, chegando à desconstrucção.
Para nós o texto não deve ser transposto para o palco como informação, mas como melodia que se move livre no espaço. Destacámos a diferença entre o teatral e o dramático. Como em Kafka: uma opção pela abertura via metáfora, mas sem processo polissémico.
Político, independente de ideologias, o que importa é questionar a realidade, conceder ao público vivências que mobilizam a sua capacidade de sentir, perceber, criar, reagir, transformando o teatro num laboratório de fantasia social.
A construção da narrativa do espectáculo organiza-se a partir dos materiais significantes, não havendo muita preocupação em partir de um sentido geral que totalize o conjunto. Mesmo existindo um esboço de enredo fazemos questão de agregar ao fio narrativo várias fontes paralelas de enunciação. São fios enredados na luz, no espaço e em situações visuais, musicais ou verbais que nada têm a ver, a princípio, com o assunto. Por vezes, utilizámos referências de espectáculos anteriores, criando assim possibilidades de interferências de Mundos e Tempos diferentes. Por vezes, a desconstrucção é outro procedimento que interfere nos espectáculos (ex: "O Paraíso" de Alberto Moravia") outras vezes são blocos de matéria verbal distribuídos entre actores e não definindo uma comunicação interurbana verbal (recordar "Chatila" de Jean Genet. ) O foco organizador de referências é sempre a memória de grupo como se tem revelado no processo de trabalho e na realização dos espectáculos. Outra preocupação: o que vem antes não determina o que vem depois; a mesma situação pode reaparecer de forma quase idêntica ou sofrer um processo de transformações, que nem por isso desenham uma narrativa sequencial.
Distanciados do que acima dissemos, como análise e balanço da nossa experiência, acrescentamos ainda que o fim e o valor do teatro estará na abordagem da obtenção de uma resposta (nunca haverá resposta) para a questão do Homem. Pensamos que cada cultura tem os seus próprios mitos. Cada época, por seu turno tem muitas particularidades. E, eis o caos, com o seu Efeito"Borboleta" , os buracos negros e o Big-Bang, fazendo uma entrada na cena mítica.Mas o mito só desaparece para renascer melhorado, e sob aspectos incessantemente renovados, contar eternamente a mesma história -do homem e da natureza, do anjo e do demónio, de Deus e do Diabo. Os mitos, e em particular os mitos científicos, são maniqueístas. Todo o Big-Bang pressupõe um buraco negro e toda a fórmula mágica uma bomba atómica. Entre dois extremos, abre-se a falha da dúvida e da incerteza. Revolta por não compreendermos, por nos sentirmos excluídos, por não pudermos ter acesso. E este pequeno desespero, bem vulgar, traduzir-se-ia por nada menos do que um furto, de uma imagem ou de uma palavra, de uma maçã ou de um todo relativo- depressa capturados e desviados do sentido inicial. Esta conduta culpabilizante faz apelo a outra, mais atenta ao nascimento e à edificação dos mitos (hoje os mitos científicos). O regresso às origens começa, como é evidente, por um regresso aos textos fundadores. Daí, a perspectiva para um programa de trabalho futuro:
a)- entre o incompreensível e o quotidiano;
b)-Deve ser imperativamente duplo, esquizofrénico, capaz tanto do melhor como do pior;
c)- Aproximação à tragédia como leitura do Homem no social contemporâneo.