segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Estado Crítico

As críticas teatrais de Jorge Louraço Figueira no jornal Público - e não só!

O som dos tacões no soalho do teatro [BOAS]

Persona, de Ingmar Bergman, pel’ As Boas Raparigas
Porto, 2 de Outubro

Persona, o filme, é célebre por se referir ao próprio acto de filmar. Quando uma das duas personagens (ou metade de uma única) espeta o pé num vidro deixado pela outra, a fita acaba por queimar, dando lugar a fantasmas de cinema, como se o ferimento ficcional tivesse originado uma coisa infilmável. Em momentos cirúrgicos, a ficção é cortada, e o realizador lembra que se trata de um faz-de-conta. Um faz-de-conta de inspiração psicanalítica, claro, mas mesmo assim um faz-de-conta.

Em palco, é mais fácil recordar às pessoas que se está apenas a fingir. Basta o toque-toque dos tacões da menina no soalho para nos lembrar que afinal estamos no teatro. As revelações ou os picos de tensão de uma peça podem bem ser sublinhados por todo o tipo de coisas que nos chame de volta para a realidade, quando já pensávamos estar a salvo dela, num mundo de fantasia.

A encenação desta Persona para palco optou por não almofadar as solas de um dos pares de sapatos, dispensando o truque. Neste caso, o som dos saltos altos é usado para assinalar a inversão de papéis das personagens, ao mesmo tempo que afirma a materialidade incontornável dos corpos das actrizes. Há outros marcadores de que estamos num palco, o principal dos quais é o uso de uma cortina, aberta depois das primeiras cenas e fechada antes do ataque final. Esta e outras convenções, denunciadas com gosto, são usadas como trunfos da teatralidade: cada gesto desperta os sentidos, em especial o instinto espacial que, no cinema ou na literatura, costuma estar bem mais adormecido.

Mas o que desestabiliza a leitura, e incita o espectador a procurar significados ocultos, são os pequenos gatos escondidos com o rabo de fora. (Os passos na rua; a porta aberta para o pátio; o televisor com as palavras em sueco.) A figurinista, de cujo trabalho gosto em particular, faz maravilhas com os trapos. A presença dos corpos é tão ameaçadora como sedutora, revelando a pele das actrizes, mais trigueira, uma, mais láctea a outra. A montagem, que parecia mais difícil de reproduzir, por ser forma específica do cinema, foi incorporada neste espectáculo graças à agilidade no uso dos figurinos, adereços e cenário, e às diferentes atmosferas da iluminação, que ritmam uma espécie de mudança de planos. Assim, dá gosto ir ao teatro.

Esta fábula foi a melhor maneira de Bergman desabafar, rompendo o mutismo do ficcionista perante o olhar do garoto no gueto judaico de Varsóvia ou a serenidade do monge vietnamita imolando-se pelo fogo. A foto do Gueto e a filmagem do Vietname transcendem o mero noticiário, é óbvio, e representam o horror de modo arquetípico, ou não teriam lugar no guião de Persona, cuja metáfora é a divisão de personalidade entre a horrível verdade e a cara que mostramos. O apego de Vogler à verdade fá-la renunciar à fala, na impossibilidade de ser verdadeira perante o horror. Mas a que horror corresponde a resposta d’ As Boas? Que actos sanguinários são ocultados por máscaras de palavras? Privada da sua relação (metafórica) com episódios históricos exemplares, a revelação, por parte da mãe, do asco que tem pelo filho, perde a grandeza que nos horrorizaria até cairmos no mutismo, qual Electra do século XXI.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Persona de Ingmar Bergman



“Persona é o conhecimento, um terrível conhecimento sobre a nossa solidão, a nossa singularidade. A nossa capacidade de tocar um ao outro. É uma confissão dos nossos medos. Do homem, do fracasso, da morte. Persona é um drama sobre o desespero, o silêncio. Um terror indescritível da vida em todos os aspectos. É um drama sobre a sensibilidade da pele, dos rostos e das palavras não entendidas. Persona é uma ilusão estilhaçada. Uma vitória sobre o silêncio.“
Texto do trailer de Persona


Encenação│ João Pedro Vaz
Tradução│ Armando Silva Carvalho
Cenografia│ Cláudia Armanda
Design de Luz│ Nuno Meira
Sonoplastia│ Luís Aly
Figurinos│ Catarina Barros
Elenco│Maria do Céu Ribeiro e Sandra Salomé


Persona, Suécia, 1966 – Guião de Ingmar Bergman

Sinopse

A actriz Elizabeth Vogler deixa de falar durante uma representação teatral de Electra. O seu mutismo em relação aos que a rodeiam é total, sendo então internada numa clínica. Não está doente, simplesmente optou pelo silêncio. Alma, uma jovem enfermeira, fica encarregada de tratar dela. Quando, a conselho médico, as duas se isolam numa ilha, passam a desenvolver uma intimidade e cumplicidade crescentes. Com isso estabelece-se uma constante troca de identidades.

Persona

Obra impregnada do conceito de pecado e principalmente da culpa, Persona é fiel aos temas recorrentes das obras de Ingmar Bergman. Em Persona, é visível a submissão do autor ao estilo a que ele sempre recorreu: a temática bastante densa e sempre pessimista, com poucos personagens, vivendo situações de crise intensa em ambientes quase sempre claustrofóbicos, mesmo que o cenário seja a paisagem de uma ilha. Sabendo que com Bergman vida e obra são conceitos indissociáveis, assinala-se que o filme foi confessamente concebido durante um período de profunda crise do autor, quando este se encontrava hospitalizado devido a uma pneumonia e em período de questionamento da sua actividade como director do Teatro Nacional de Estocolmo. Como ele próprio afirma: "Era necessário, por conseguinte, escrever qualquer coisa que apaziguasse a sensação de futilidade que sentia, a sensação de estar a marcar passo." Da mesma forma, PERSONA deixa claro os momentos em que o artista se vê impassível ao observar que, mesmo contra o seu desejo, a sua arte acaba por ser inútil enquanto modificadora da realidade, impassibilidade essa que acaba por determinar o retiro e o silêncio constante de Elizabeth Vogler.
Cine Atila Francis 08/07/2008



Porto
De 24 de Setembro a 2 de Novembro no Estúdio Zero
Terça a Domingo às 21h45
M/16


Estúdio Zero - Rua do Heroísmo,86 (Metro do Heroísmo)

INFORMAÇÕES E RESERVAS
225373265
asboasraparigas@gmail.com
estudio0.blogspot.com

Companhia subsidiada pelo Ministério da Cultura / DGArtes.

quinta-feira, 10 de abril de 2008

4.48 Psicose de Sarah Kane

"Estou a escrever uma peça chamada Quatro Quarenta e Oito Psicose. Tem semelhanças com Falta, mas é diferente. É sobre uma depressão psicótica. É o que acontece com a mente de uma pessoa quando as barreiras que distinguem a realidade das diferentes formas de imaginação desaparecem completamente. De maneira que já não consegues estabelecer a diferença entre a tua vida acordado e a tua vida em sonho. E também, não consegues – o que é muito interessante na psicose – não sabes onde é que tu acabas e o mundo começa. Por isso, por exemplo, se eu fosse psicótica, eu não sabia literalmente estabelecer a diferença entre mim, esta mesa e o Dan. Fariam todos parte de um continuum. E as diversas fronteiras começam a desabar. Formalmente também estou a deitar abaixo alguns limites. Continuar a fazer a forma e o conteúdo num só. Isso tem-se vindo a provar extremamente difícil e não vou dizer a ninguém como o vou fazer, por isso se algum de vocês chegar lá primeiro eu ficarei furiosa. Seja lá o que for que iniciei com Falta, desta vez vai um passo mais à frente. E para mim essa linha é muito clara e vai desde Ruínas através de O Amor de Fedra até Purificados e Falta e até esta agora. Para onde vai depois disso não tenho ainda a certeza."
Sarah Kane (Trad.: PM)




As últimas notas sobre dor, angústia mental, cáusticos relatos do uso terapêutico de drogas, escritos por Sarah Kane, vão estar em cena no ESTÚDIO ZERO, de 10 a 24 de Abril, tomando novamente fôlego para os dias 1 a 18 de Maio, de Terça a Domingo sempre às 21h45.


Encenação: Luís Mestre
Tradução: Pedro Marques
Cenografia: Pedro Novo
Design de Luz: Luís Mestre e Manuel Pereira
Elenco: Daniel Pinto e Maria do Céu Ribeiro






Estúdio Zero - Rua do Heroísmo,86 (Metro do Heróismo)

INFORMAÇÕES E RESERVAS

225373265


estudio0.blogspot.com